quarta-feira, abril 06, 2011

Senhora de 63 anos seria bisneta de Francisco Coelho



À beira do rio Itacaiúnas, na Rua Benjamin Constant, já no bairro carinhosamente tratado por seus moradores como Cabelo Seco, mora uma mulher de 63 anos que pode guardar as memórias de família de três gerações de descendentes do fundador de Marabá, Francisco Coelho da Silva. O nome dela é Rute Coelho da Silva, que diz ser bisneta do comerciante maranhense responsável por fincar o marco do que seria mais tarde a cidade, a partir do seu comércio batizado de Marabá, uma referência ao poema de Gonçalves Dias. Mas a vida de Rute não tem poesia, é pautada por lembranças que diz ter da avó Joana e da mãe Constantina, as quais, revela ao CORREIO DO TONCATINS, nunca deixaram de se emocionar com o dia 5 de abril, data em que é comemorado o aniversário de emancipação do município.

A nossa reportagem soube da existência de Rute na última semana e a visitou na casa simples onde mora com a filha Léia, o marido desta e três netos. É o salário mínimo do genro, empregado numa lanchonete, que sustenta a família. A bisneta de Francisco Coelho, nome tão lembrado no histórico do município, sequer tem aposentadoria, pois na juventude trabalhou apenas na roça, como ela mesma narra. Rute nos recebeu no sofá da sala, com a neta ao lado. Com memória afiada, narrou várias passagens de sua infância e diz ter claro na mente o que sua mãe e avó sabiam sobre o ancestral ilustre.

O CT quis saber, então, porque a família é pouco conhecida como a descendência viva e legítima de Francisco Coelho. A isso, Rute responde que desde a sua avó, Joana, nunca houve o interesse em viver da imagem do comerciante, até mesmo pela vida simples que as gerações posteriores tiveram. Joana, por exemplo, nunca deixou de visitar o busto do avô na pracinha do bairro que leva o nome dele. Rute, aliás, afirma que o corpo de Coelho estaria enterrado naquele local. Era comum, antes da família virar evangélica, acender velas ao pé do monumento erguido em memória do pioneiro.

Constantina, por toda a vida, comemorou os aniversários de Marabá com a memória voltada ao avô, mas sempre o fez de forma simplória. Nunca participou da organização das comemorações de 5 abril e apenas os amigos mais próximos sabiam da sua descendência. “Era sempre um dia especial e nós percebíamos isso”, narra a bisneta ao falar da própria mãe.

Rute narra sobre o 5 de abril de 1960, quando a festa de aniversário de Marabá esteve ameaçada. Segundo ela, na véspera havia caído sobre a cidade uma chuva torrencial, com raios, trovões e ventania, a qual se arrastou pela madrugada da data da festividade. A bisneta de Francisco Coelho, então uma garota de 12 anos, presenciou quando a mãe, Constantina, fez uma prece ao avô para que a chuva passasse e foi o que aconteceu, garantindo, em mais um ano, a comemoração.

Em menos de um mês, quando pessoas de dentro da Prefeitura de Marabá descobriram sobre a existência de Rute Coelho, ela teve movimentada a sua vida antes pacata. Teria gravado depoimentos em vídeo para exibição nesta terça-feira, fora entrevistas para dois jornais. Questionada pelo repórter do CT se não faz tanta propaganda sobre a descendência de Francisco Coelho por algum tipo de constrangimento ela foi enfática em responder que não. “Tenho muito orgulho de ser bisneta dele”, garante. Nesse momento, ela buscou uma bolsa no quarto para mostrar a sua certidão de nascimento.

Histórico

Conta a tradição que, em 7 de junho de 1898, o maranhense, originário de Grajaú, Francisco Coelho da Silva, inaugurou um barracão comercial no encontro entre os rios Tocantins e Itacaiúnas. O nome Marabá passou, então, a designar também a pequena vila que ali foi formando-se. Com isso, aquele ano é tido como o da fundação de Marabá, só instalada como município em 5 de abril de 1913. A história de Francisco, no entanto, vai ficando esmaecida nos registros históricos desde então. Os livros passam a focar os homens responsáveis pela administração da nova cidade, assim como as famílias responsáveis pela tradição econômica.

Filha de Francisco, Joana casou-se com Olímpio de Souza Cabral e viveu em Carolina (MA) onde teve os filhos Antônio (morto aos 9 meses), Joana (morta aos 11 anos) e Constantina. Muito apegada ao pai, Joana volta a Marabá em 1908, mas já não o acha vivo. Ela permanece no município e vive até 1954, quando morre acometida de tétano, mesma enfermidade que teria matado o pai.

Já a filha Constantina viveu até os 76 anos, tendo morrido em consequência de doença cardíaca em 1990. O seu corpo, diz Rute, está enterrado no Cemitério da Saudade, na Nova Marabá.

Coube a Rute Coelho da Silva dar seguimento à linhagem que reside aqui. Aos 29 anos ela constituiu união com Messias Ribeiro de Carvalho, com quem nunca formalizou casamento civil ou religioso, mas com o qual viveu até a morte deste em 2005. Como descendentes vieram Raquel Coelho da Silva e Léia Coelho da Silva, esta última com a qual ela mora. A não formalização de casamentos na família ou a manutenção do nome de solteira é que teria garantido os sobrenomes “Coelho da Silva” até esta geração, explica Rute, quando questionada.

O fato de viver hoje à beira do rio no bairro que leva o nome do bisavô também não passa de uma grande coincidência garantida pelo destino. A filha mora ali há alguns anos, mas Rute, na infância, adolescência e vida adulta morou em diversos endereços, entre eles: Travessa 13 de Maio, Folha 28, Km 6 e Laranjeiras.

A pretensa bisneta de Francisco Coelho garante que este ano, como sempre tem feito a sua família, acompanhará com atenção a programação prevista para este dia 5 de abril e que manterá a tradição de visitar o busto do bisavô na pracinha do Cabelo Seco. “Estarei lá”, avisa.
 
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História apagada nos livros e registros

Com uma menção histórica que muito bem lhe poderia ter rendido uma biografia, Francisco Coelho da Silva simplesmente some dos livros e outros registros históricos, sendo citado apenas pela constituição do comércio no encontro dos rios e pela sua morte que teria se dado por tétano, mas em ano impreciso. Nada há que contextualize sua vida familiar, como casamento, filhos e perpetuação.

As próprias circunstâncias da morte do pioneiro guardam contradições, todas coincidentes apenas no ferimento no pé. Há quem diga que foi causado por arraia, outros por corte com um prego e até de um tiro no pé, por tiro acidental. Neste último caso, a morte teria se dado por gangrena.

Um dos livros mais usados para referenciamento, “História de Marabá”, de Maria Virgínia Bastos de Mattos, trata todos esses fatos no condicional, recorrendo a termos como: “Conta a tradição...”.

Guardiã do acervo histórico sob responsabilidade da Fundação Casa da Cultura de Marabá, Maria Augusta Inês diz que todo relato sobre descendentes de Francisco Coelho deve ser estudado com muito cuidado e de forma científica. Destaca que a morte do comerciante teria se dado em 1906, de acordo com histórico em poder da FCCM.

De outro lado, Inês lembra que o nome dele foi escolhido para batizar o futuro museu público municipal de Marabá, a ser instalado no Palacete Augusto Dias, na Marabá Pioneira.

Outra linhagem

A reportagem localizou Raimundo Reis Coelho de Carvalho, o Reizinho Pintor, morador da Folha 28. Aos 71 anos, ele diz ser neto de Inês Coelho da Silva, irmã legítima de Francisco Coelho. Também com memória afinada ele narra histórias que diz ter ouvido do pai, João Coelho Souza, sobrinho do pioneiro.

Segundo Reizinho, a família mudou-se definitivamente para o Pará em 1913, mesmo ano da instalação do município. João Coelho, por sua vez, é nascido em 24 de agosto de 1901, em Goiás, mas foi criado onde hoje é o município de Itupiranga, localidade que também abriga o túmulo de Inês Coelho.

O pintor garante não saber o destino dos descendentes do seu tio-avô, e surpreende-se ao ouvir do repórter do CORREIO DO TOCANTINS sobre a história de dona Rute. Reizinho diz nunca ter ouvido falar dela, mas acredita ter lógica tudo o que é narrado por ela. “Quero conhecê-la”, afirmou.

2 comentários:

Muito massa a reportagem. Parabéns. Vou recomendar pra galera da casa do estudante.

Muito bacana mesmo. Mas, ficou a dúvida sobre a morte de Francisco Coelho.

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